terça-feira, 23 de novembro de 2010


A menina era pequena, com cachos dourados no cabelo que a faziam parecer uma princesa de mel. Os seus olhos inocentes rasgavam os céus de tanta beldade junta numa criança só. Entre os dedos prendia os sonhos que a faziam rir, pular de vontade de ser crescida. Por vezes, sentia-se triste porque nem sempre o mundo lhe dava as bonecas preferidas que tanto desejava ter. Carolina, nesses dias, brincava muito com o seu quase irmão. Era um rapaz bastante mais velho, com ideias maduras na cabeça e por vezes assustadoras. No entanto, Carolina inocentemente acreditava que tudo o que ele lhe dizia era verdade. Tinha cinco anos, quando tudo mudou. Estava um dia igual aos outros, era Verão e o sol raiava, até as nuvens se aproximarem e lhe rasgarem o peito com uma rajada de vento. Brincava com ele nesse dia, brincavam aos polícias, às bonecas, aos médicos. Foi aí, que tudo aconteceu. Examinou-a com as mãos fazendo-lhe cócegas, atrevido voltou a examiná-la com mais força. Carolina ria-se, não entendia o que se passava. Lentamente, o rapaz despiu-a, "é para ver se está mesmo tudo bem", dizia sorrindo. As nuvens que não existiam no céu, agora cobriam todas as paredes da casa, conseguindo tornar a visão de Carolina diferente do que até agora tinha tido. Ele apoderou-se dela como um animal faminto. Sugou-lhe a pureza do corpo, com um gesto bruto e doloroso. Carolina gritava, gritava muito interiormente. Havia sangue espalhado pelo chão, o seu corpo estava a rejeitar aquilo a que ela hoje chamaria de "prazer". O "quase irmão" deitou-se sobre ela rígida e freneticamente, o seu corpo estava transpirado e emitia gemidos por todos os poros. Carolina estava aflita, pálida e a respiração rápida daquele "animal" sobre ela, deixava-a quase inerte. Finalmente aquilo parou...por uns minutos. Obrigou-a a engolir todos os fluídos nunca antes conhecidos, ordenou-a que lhe tocasse onde jamais tinha tocado, fitou-a com brutalidade e prendeu-lhe a cabeça entre as pernas, tornando a sacrificá-la com um pedaço de carne perfeitamente nojento na sua boca. Carolina vivia um pesadelo. Estava presa a uma dolorosa acção, para não morrer com uma faca no pescoço. Nas horas e nos anos seguintes, Carolina fora escrava daquele animal selvagem, porco e digno de ser enterrado. Havia o nojo, a revolta, a raiva, um choro calado que queimava o peito derretendo a doçura, e um sangue coalhado. E imagens reais de todos os instantes. E a dor física e corporal. Desde esse primeiro dia, Carolina nunca mais fora a mesma. Carolina tornara-se numa criança impura e para sempre sentiria nojo do seu próprio corpo. Para sempre levaria consigo marcas cravadas a ferro quente, que não a deixavam confiar em nenhum ser humano, neste caso desumano. Carolina deixou as bonecas e trocou-as por uma dor ínfima que lhe mudou a vida para sempre. Ponto Final.

in, "Carolina, a menina impura."

sábado, 13 de novembro de 2010


Com uma estaca de ferro velho

e gélido, o coração foi cravado.

Sem pena. Sem mágoa. Sem desafronta.

Dor voa sobre as nuvens, sopra o vento

As lágrimas que do rosto tombam

Inundando de sangue a pura alma.

Pede ajuda entre dentes. Gritando num sussurro

Com o olhar vazio, suplica. Com a pele rasgada

E de joelhos raspando o chão cai enfermo o corpo dela.

Enfermo e nauseabundo de cansaço.

Assim é a dor.

Assim é a fraqueza mascarada de robustez.

Enquanto a melodia surgir da agonia,

Ela é assim.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010


Sentia o corpo num êxtase absurdo que a levava ao passado. Na escuridão que afogava o seu olhar, conseguia avistar uma sombra um tanto (ou pouco) familiar. Estava pálida, com os olhos crus a fixar o horizonte quando ouviu gritos, uns gritos que já a tinham feito tremer, correr, fugir. Gritos e sangue. Lembra-se. Um sangue puro de inocência, um vermelho carnudo que vinha do mais íntimo do seu corpo, da sua alma. Sentia-se num turbilhão de tristeza e amargura que lhe arrancavam do peito o calor, congelando-o com memórias. Deixou de sentir o corpo. Havia dor física, uma acutilante dor física que a fez flutuar sobre o seu próprio corpo e avistar uma pequenina alma a tremer de medo nas mãos de um monstruoso ser. No fundo do peito conseguia ver ainda a dor em carne viva, nos membros a dor tatuada a ferro quente, e o fim da pureza e o início de uma luta percorreram-lhe a pele num arrepio acutilante. Os olhos crus continuavam a fixar o horizonte vivendo terrivelmente dolorosas imagens, foi então que gritou por colo e adormeceu com as lágrimas a queimarem-lhe o rosto...